Lisboa Madrid Tradições Faladas: “Pagar o vinho“
Janeiro 2010 / Enero 2010 Belos tempos …! É sempre assim que gosto de me justificar, quando rebobinando a fita do tempo, me lembro das saudosas tradições da minha terra natal. A lembrança de alguns rituais, poderá, tornar-se fastidiosa para alguns, menos dados às lembranças do passado, ou até, na pior das hipóteses, terem vergonha da sua naturalidade. Outros porém, gostarão de evocar comigo, costumes ancestrais, hoje em desuso, mas que há trinta e tal anos a esta parte, antes do 25 de Abril, constituíam diversões que simultaneamente, eram uma fonte de cultura. Senão vejamos: No concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, fazia parte da tradição, denunciar todo o namorico que qualquer forasteiro iniciasse com alguma nossa conterrânea. Apesar de na altura não haver telemóveis nem internet, havia sempre alguém mais atento para detectar movimentações masculinas estranhas e incursões nocturnas na casa de moçoilas em fase de namoriscar. Passada a fase da suspeita e concretizadas as informações, bastava depois apenas controlar os acessos à residência da pretendida. Estava instituído, funcionando como uma autêntica praxe, que, quando algum rapaz de fora da localidade, iniciasse namoro na nossa terra, ficava-lhe bem “pagar o vinho”, ou até, de forma menos habitual “pagar a patente”, sob pena de não ser socialmente aceite no nosso meio, sujeitando-se inclusivamente, caso se manifestasse avesso, sofrer penalizações e até alguns açoites. Este ritual, pelo menos na fase em que dele tomei parte, consistia basicamente, no seguinte: Quando, já durante a noite e com iluminação pública muito escassa, o pretendente estivesse já dentro da casa dos pais da pretendida, os jovens da terra, daqueles que já faziam a barba, juntavam-se primeiramente num café, por norma o que fosse mais frequentado pela malta nova. Depois, mal alguém denunciasse a presença efectiva de um forasteiro namorador, em casa de fulana tal, depressa se traçavam os planos e, em grupo silencioso de pacífico assalto, aproximavam-se da casa onde se iniciavam projectos amorosos e era então que todos clamavam, a plenos pulmões, e ao jeito de meio pregão popular, meio brado de rebate: “Ao barro …! Ao barro …! Ao barro …!” Sempre de forma continuada e uníssona, motivando toda uma zona residencial, para que curiosos, todos saíssem para a rua, e reforçassem os apelos dos rapazolas. Escusado será dizer que com toda aquela vozearia, as gargantas ficavam forçosamente sequiosas e era urgente e necessário refrescá-las, sendo a bebida eleita, o puro néctar de Baco (o nosso vinho, puro e sem mistelas). O recipiente, já o levava a malta precavida, nem mais nem menos que o saudoso, cântaro de barro, que obviamente tinha várias aplicações, além de manter fresca a água do “Chafariz dos Pretos”.
Finda a cena do alarido, na crescente expectativa, aguardava-se a todo o momento a abertura da porta, pois era necessário, que alguém justificasse a presença de um forasteiro no seu interior e quais as suas intenções. Nesta ansiedade, só restavam praticamente duas alternativas: Ou alguém se apresentava dialogante e responsável, assumindo o início de um namoro, estando na disposição de compensar os rapazes da terra com a quantidade de vinho pretendido, podendo inclusivamente, dentro da franqueza do dono da casa, fazer-se acompanhar de géneros alimentícios e tudo acabava em bem, ficando a partir dali a situação legalizada, podendo, a partir daí, o rapaz passear normalmente com a moça por onde lhe fosse permitido e até certas horas para salvaguardar o bom nome da donzela e da respectiva família; Ou então, quando a porta não se abria, e o diálogo não era possível, a coisa azedava, degenerando eventualmente, para a declamação de impropérios e outros actos nada abonatórios para a família em causa. Assim se brincava e passava uma noite de farra, de sã camaradagem, onde o espírito de grupo funcionava e os partidos políticos não nos dividiam, porque não tinham tomado posse das nossas consciências. António José Panta Quadrado
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