Lisboa Madrid Teatro Aberto: Irene Cruz, cinquenta anos de Teatro
Junho 2010 / Junio 2010 Entrevista conduzida por Leandro Vale em 21 de Março de 2010 LV: Irene Cruz é nome que não necessita de comentários. Teatro, televisão, cinema, rádio, são facetas de cinquenta anos de trabalho que se completaram no ano anterior. Fomos companheiros do Conservatório de Teatro e no passar dos anos acompanhámos, da maneira possível a nossa vivência. IC: 50 anos de Carreira – Bodas de Ouro – Não é assim que se diz? Lembro-me muito bem de quase tudo. Do 1º dia do Conservatório, dia esse (a data esqueci) onde eu e tantos outros, pois éramos alguns, fomos fazer a prova de “aptidão”, assim se chamava, para dar entrada (ou não), no Curso de Teatro. Estava nervosa, não conhecia ninguém, era a única miúda, tinha 15 anos acabados de fazer, e os outros eram já homens e mulheres feitos, mas não me intimidei. Fui muito acarinhada por todos, ganhei imensos “pais”, eram todos muito protectores. LV: Desses tempos bons momentos... IC: Bons momentos, para mim foram sempre bons momentos. Deslumbrada com tudo e todos percebi logo o que era bom e menos bom. Havia muita repressão, estou a falar nos fins dos anos 50, tanta que nem parecia uma Casa de Artes, mas todos com experiência de vida, soubemos ultrapassar as dificuldades. Aprendi com eles, era muito atenta e ingénua mas muito esperta também. Tive sempre a sabedoria de escolher o trigo do joio, no construir da minha personalidade. LV: Várias personagens trágico cómicas passaram pela nossa vida no Conservatório. Entre elas a Ritinha... IC: A Ritinha era uma figura ímpar pertencia aos móveis daquela Casa. Muito mais que rigorosa, era uma “Polícia de Costumes” agarrada ao Poder da Casa e do Director Ivo Cruz, muito fascinante perigosamente falso. Odiava os Alunos do Teatro. Para ele só a música era Arte. Chamava-nos, Actores meia Tigela, ou Pé descalço, Arruaceiros sem Eira nem Beira, Badamecos... Ficava estupefacta com aquela falta de educação e de respeito de um Director de uma Casa das Artes, mas esses discursos não me afectaram em nada. Ás escondidas divertia-me com os colegas “Pais” daquela situação, colegas me ensinaram muito. LV: Achas que mudou muito a forma de ser das gentes de teatro? IC: Dantes era “chic”. Hoje não é por ser “chic”. É moda ser actor. Toda esta gente quer ser “notável”. A maior parte nem formação tem, mas como diz o ditado… o que a onda trás, a onda leva. Do nosso tempo é claro ficámos muito poucos na profissão, o destino de cada um fez naturalmente a escolha. Sempre muito bons momentos, nunca senti má camaradagem, foram os melhores anos da minha juventude, inesquecíveis. Curiosa, no Conservatório, era a separação dos sexos porque nas aulas estava tudo junto e no intervalo é que ela existia, A Ritinha encarrapitada nos saltos dos sapatos, saltos 8cm, andava para cá e para lá pois a casa de banho era longe das meninas. Tínhamos que passar pelos rapazes e o Intervalo era passado assim num grande corrupio, só para chatear a Ritinha. O pior foi num dia em que terminou o intervalo. Faltavam duas alunas que não tinham saído da casa de banho. Eram lésbicas e no amor se perderam no tempo. Foram expulsas pelo Director. Havia o livro de ponto é claro, onde tudo era escrito em relação a nós, mas esse episódio, ficou por lá mal esclarecido. Era assim a separação de sexos. LV: Iniciaste a tua carreira no Gerifalto... IC: O Gerifalto uma bela escola de representar sim senhor! A peça era “A História da Carochinha” que era eu. LV: Um outro episódio curioso dos nossos tempos é o da Luísa... IC: A Luísa era uma falsa ninguém, uma falsa virgem, coitada era uma histérica juntamente com a Ritinha. Levava “crochet”, fazia “naperons”, para o enxoval nos intervalos, a expulsão do Nicholson era evidente, ele queria aconchego e a Luísa era “virgem”…! Mais tarde a Luísa perdeu a sua virgindade com um homem casado ligado à rádio. LV: Voltando a falar do teu trajecto. Iniciaste a carreira no Gerifalto com o Couto Viana... IC: O Couto Viana foi um mestre, aprendi muito com ele, era honesto sim, até na sua ideologia. Era salazarista convicto, mas não misturava a sua Arte com a política. Era um homem desse regime mas, fazia tudo com a sua honestidade. É também um grande Poeta. Hoje está na Casa do Artista a viver. Foi uma grande escola. Funcionava no Trindade -teatro esse ligado ao Regime Salazarista- e no Monumental, tinha um grande empresário, Vasco Morgado. LV: A seguir... IC: Pertenci ao Couto Viana alguns anos, pois não era só o Gerifalto que ele dirigia, tinha também a Companhia de Teatro (não me recordo da designação)* mais voltada para adultos. Faziam-se belos trabalhos para um público adulto e o Couto Viana deu-me uma prenda na peça de Strindberg, “O Pai”. Era o pai o Alves da Costa a mãe era Brunilde Júdice e o meu primeiro grande papel: a filha. Tanto quanto me lembro a crítica reparou em mim elogiando o meu trabalho. Fui muito feliz nessa época. Depois a empresa José Miguel Batista Bastos e Vasco Morgado onde fiz Teatro de Revista (adorei a experiência), Opereta, Comédia Musical, Comédia, Farsa, enfim todos os géneros. Foi uma grande escola para o Teatro que hoje faço. LV: Aparece também a televisão, a rádio... IC: A par do Teatro claro, apareceu a Televisão. Trabalhei com todos os grandes realizadores de então e o meu nome começou a ser conhecido através da TV. Mais que o Teatro na época, nos anos 60. O Cinema também esteve na minha vida. Fiz ao todo cinco filmes. Hoje? Ninguém precisa dos meus serviços! Mas que cinema é que se faz em Portugal? Rádio, fiz muito Teatro radiofónico: peças longas, peças só de Rádio, folhetins… Fazer Rádio acabou, é pena, porque era uma excelente escola na Arte de Dizer e representar só com a voz. Quem me levou para a Rádio foi o Prof. e Actor, o meu querido amigo Álvaro Benamor. LV: Dificuldades... IC: A minha carreira foi andando por mim e comigo só comigo, a pulso, com a minha dedicação e amor, com muita verdade amo-a de coração. A censura era o lado negro da nossa Arte. Houve vários e terríveis momentos, mas não me apetece referir nenhum deles, apenas deixo um alerta, Atenção que hoje a Censura económica é um inimigo também, difícil de enfrentar. LV: E agora...? IC: Tudo o que fui e sou, foi construído por mim. Não me arrependo de nada, nem do que foi menos bom. A vida é feita de altos e baixos, só é preciso estar atenta. Tenho um filho e duas lindas e doces netas. O Grupo 4 foi a minha independência teatral de quatro jovens – eu, o João, o Zé e o Rui, que nos atrevemos a avançar e cortar o arame formado do “sistema imposto” e foi um exemplo para os jovens deste País. Os êxitos somaram-se, foi extraordinário. LV: Acontece o 25... IC: O 25 de Abril, a libertação total do País, das Artes, do Povo oprimido e “atado” durante anos. Foi lindo, foi escaldante, foi a Liberdade Racional. LV: Mas o Teatro Aberto continua a tua paixão... IC: O Teatro Aberto continua teimosamente a existir e bem com a Irene, o João, não o Zé e o Rui – mas o Melim e o Pestana. Mostramos com o nosso trabalho, luta e experiência de vida, o teatro Português e o Teatro Mundial, com excelentes textos que uma parte do mundo conhece e presenteamos o nosso público com belos espectáculos, tão belos como os do “estrangeiro”, com menos recursos, que os “dos estrangeiros”, mas com uma qualidade ímpar. LV: Tiveste algum desânimo na corrida? Pensaste em desistir? IC: Desanimada, sim pela injustiça governamental do nosso país. Os governantes não vão ao teatro e estão-se nas “tintas” para nós, e que para eles somos, os “barraqueiros”, os “cómicos” os “irreverentes” e perigosos cidadãos a que se dá o nome de Actores. Mas nunca pensei LV: E sentes-te grata pelo carinho e prémios recebidos. IC: Sim, por exemplo, sempre que subo ao palco para ser outra, ser reconhecida pelo público generoso que me acarinha e gosta de mim. Outro momento foi o dia 8 de Maio de 2002 em que fui condecorada pelo Dr. Jorge Sampaio, então Presidente da República – com a Ordem de Grande Oficial do Infante D. Henrique. LV: Houve uma pessoa importante para ti que te impeliu para o que és hoje. IC: O meu pai. Importante na questão principal, não se opôs nunca á minha vida de actriz, foi ele mesmo que me matriculou no Conservatório, naquela época em que a profissão não era bem entendida pelos “outros”. Não tive barreiras nenhumas. LV: E agora? Aspirações... IC: Aspirações? Sei lá! Nunca penso assim, mas já agora quero continuar a ser obstinada, profissional, batalhadora, estar nesta luta enquanto tenho sabedoria e força. Parar nunca, recuar nunca. A batalha ganha-se sempre em guerra, mas com afecto, generosidade e alguma humildade. O meu destino está traçado e ele mostra-me os caminhos que tenho que enfrentar e o que devo seguir. Até sempre Leandro e como sempre dizia o querido Varela Silva: “Viva o Teatro!” __________________ * Companhia Nacional de Teatro (nota de Leandro Vale) |
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